domingo, 23 de março de 2008

Sabonete Bactericida - Solução ou Problema?

Sabonetes bactericidas, ameaça em vez de solução?

POR COCO BALLANTYNE

Sabonetes, produtos de limpeza domésticos, esponjas e até mesmo colchões e brilho labial agora contêm ingredientes bactericidas.

Mas a adição desses ingredientes faz algum sentido? Tradicionalmente as pessoas deixam o corpo e a casa livres de bactérias usando sabonete, sabão e água quente, álcool, água sanitária ou peróxido de hidrogênio (água oxigenada). O sabão funciona soltando a sujeira, a gordura e os microorganismos das superfícies, para que possam ser facilmente levados pela água. Limpadores gerais como o álcool provocam dano às células ao afetar estruturas-chave, Produtos contendo agentes antibacterianos deixam resíduos na superfície, como nota Stuart Levy, da Tufts University School of Medicine.

Promovendo a Evolução

Essa persistência dos antibacterianos é problemática. Quando a população bacteriana sobrevive ao primeiro ataque de um agente antibacteriano com a substância química remanescente, pode surgir uma pequena subpopulação armada com mecanismos de defesa especiais. Esse grupo então se multiplica à medida que seus parentes mais fracos perecem, e suportará o ataque da próxima vez que o agente químico for aplicado. "O que não mata fortalece" é a máxima que vigora aqui; as substâncias bactericidas selecionam as bactérias capazes de suportar sua presença.

A resistência às substâncias químicas tópicas não é o único risco. Quando as bactérias se tornam tolerantes a esses compostos, às vezes ficam menos sensíveis a certos medicamentos antibióticos. Esse fenômeno, chamado resistência cruzada, já foi demonstrado com o triclosano, um dos agentes mais comuns em produtos bactericidas.

Mutações genéticas podem ocorrer em bactérias expostas a triclosano por longos períodos e permitir resistência à isoniazida, um antibiótico usado no tratamento da tuberculose, por determinados microorganismos, explica Allison Aiello, da School of Public Health da University of Michigan. Outras mutações podem permitir aos microorganismos recarregar suas bombas de efluxo - máquinas de proteína na membrana celular que podem expelir vários tipos de antibióticos, incluindo a ciprofloxacina, usada no tratamento contra o antraz. Esses efeitos foram demonstrados em laboratório, não em residências e outros ambientes, mas Aiello suspeita que os poucos estudos realizados até o momento na casa das pessoas podem não ter sido suficientemente longos. "O potencial está lá", assegura.

Os cientistas têm preocupações adicionais com os agentes bactericidas. Tanto o triclosano quanto seu parente químico próximo, a triclocarbana, estão presentes em 60% dos rios e riachos americanos, aponta Rolf Halden, da Bloomberg School of Public Health, da Johns Hopkins.

Ambos os agentes também acabam no lodo produzido pelas usinas de tratamento de esgoto, que é usado como fertilizante para plantações, abrindo assim um caminho potencial para contaminação dos alimentos, diz Halden. "As concentrações no solo agrícola são muito altas", e essa abundância, "juntamente com a presença de patógenos do esgoto, pode ser uma receita para desenvolvimento de resistencia microbiana no meio ambiente", receia ele.

O triclosano também foi encontrado no leite materno humano - ainda que em concentrações consideradas como não ameaçadoras para os bebês - assim como no plasma de sangue humano. Não há evidência de que as atuais concentrações de triclosano no corpo humano sejam prejudiciais, mas estudos recentes sugerem que ele compromete a função de sistemas hormonais em sapos e ratos.

Nenhum Benefício

De qualquer maneira, o valor desses aditivos antibacterianos é questionável. Um painel de especialistas reunido pela Food and Drug Administration, agência de controle de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, determinou que há evidências insuficientes de qualquer benefício proporcionado pelos produtos de consumo que os contêm. "O que essas coisas estão fazendo em nossa casa quando dispomos de sabão?", pergunta John Gustafson, da New Mexico State University,

Alguns cientistas argumentam que o uso de produtos antibacterianos é apropriado no lar de pessoas com sistema imunológico enfraquecido. Mas, em geral, uma boa higiene significa o uso de sabonetes comuns em vez de antibacterianos, dizem os especialistas. "A melhor forma de evitar doenças é lavar as mãos três vezes por dia e não tocar membranas mucosas", diz Gustafson.

Coco Ballantyne é jornalista free-lance em Nova York.

Publicada na Scientific American Brasil, número 70 - Março 2008

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