domingo, 4 de maio de 2008

Nutrição -- Café e Vinho -- e Coração

Folha de S.Paulo - Plantão Médico: Suco de uva é bom para o coração - 04/05/2008
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JULIO ABRAMCZYK
Colunista da FOLHA

Durante três dias, cerca de 7.000 médicos assistiram às palestras e conferências de atualização das várias áreas da cardiologia moderna durante as sessões do 29º Congresso da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo), encerrado ontem no Expo Center Norte, na capital.
Os efeitos cardiovasculares do café foram abordados por Rosana Perin Costa, que estudou o perfil lipídico (gorduras no sangue) quando no preparo do café é usado coador ou filtro de papel, que retém substâncias gordurosas: não houve aumento do colesterol.
Ao contrário, o colesterol aumenta no consumo de café expresso e café à moda árabe. Silmara Regina Coimbra mostrou, com base em pesquisa da sua tese de doutorado na FMUSP, a ação benéfica do suco de uva e do vinho tinto na proteção de eventos cardiovasculares em portadores de colesterol alto, pela ação de flavonóides existentes nos líquidos derivados da uva.
Élcio Pfeferman referiu redução de substâncias pró-trombóticas em 30% quando do consumo de 30g/dia de álcool e redução de doença coronária em 24%. Destacou que o consumo exagerado de álcool, porém, pode levar à morte súbita em portadores de doenças das coronárias pelo efeito arritmogênico.
O vice-presidente da Socesp, Luiz Antonio Machado César, analisou a ação protetora do café em diabéticos. Citou pesquisa realizada na Finlândia com diabéticos altos consumidores de café, na qual foi observada redução da mortalidade por problemas do coração, relacionada à redução da taxa de açúcar no sangue.

Cirurgia corretiva de visão, Lasik é alvo de contestações

Folha de S.Paulo - Saúde/Visão: Cirurgia corretiva de visão, Lasik é alvo de contestações - 04/05/2008
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Entidades e pacientes reclamam do Lasik, alegando que não produz efeitos desejados

Presidente de conselho de oftalmologia, porém, diz que a cirurgia a laser tem resultados "extremamente bons" quando bem indicada

MÁRCIO PINHO
DA REPORTAGEM LOCAL

Aclamada por médicos e pacientes como uma cirurgia com excelentes resultados em pessoas com miopia, hipermetropia ou astigmatismo, a operação conhecida como Lasik também é alvo de contestações. Algumas entidades e pacientes reclamam que há chances consideráveis de a cirurgia não produzir os efeitos desejados, além do risco de seqüelas.
O último órgão a propor uma discussão sobre a cirurgia foi o FDA, agência que regula o setor de saúde nos EUA -onde o Lasik é usado desde 1998. O órgão iniciou audiências públicas em abril para debater a técnica e prepara um estudo para entender melhor quem tem maus resultados e se será necessário emitir um alerta.
"Há claramente um grupo não satisfeito e que não consegue o resultado esperado", disse Daniel Schultz, chefe de procedimentos médicos do FDA.
Uma das entidades que lutam por restrições à técnica está na internet. O site www.la sikdisaster.com reúne estudos e depoimentos contra o Lasik, afirmando que ele pode ter "conseqüências desastrosas". Pacientes contam que ficaram com seqüelas, principalmente olho seco ou perda de visão. Nos estudos disponibilizados, tenta-se comprovar os riscos. Um deles defende que até 60% dos pacientes podem ter olho seco após a operação.
Outro argumento é o desconhecimento dos efeitos a longo prazo, já que o Lasik passou a ser usado apenas nos anos 90. Desde então, ele se popularizou e se tornou uma ferramenta usada em mais de um milhão de pessoas por ano no mundo, segundo sites médicos.
O Lasik consiste no corte de uma fina camada da córnea que permite a passagem do laser. Ele remodela a córnea seguindo um mapa feito com informações colhidas anteriormente sobre o olho do paciente e o que precisa ser alterado.
Hamilton Moreira, presidente do Conselho Brasileiro de Oftalmologia, diz que, considerando os limites do laser, a cirurgia tem resultados "extremamente bons" quando bem indicada. "Tudo, em medicina, é uma relação entre expectativa e realidade. O que aconteceu nos primeiros anos do Lasik foi uma expectativa de supervisão, como um verdadeiro milagre, mas, depois, o paciente percebia que havia limitações."
Entre elas, o grau do problema: pessoas com mais de sete graus de miopia, por exemplo, não costumam receber a indicação.
Moreira, que diz considerar-se um entusiasta do Lasik, afirma que as complicações verificadas em sites com o "lasikdisaster" estão relacionadas à enorme quantidade de pacientes submetidos à cirurgia.
"É uma das operações mais feitas no mundo. Por isso, é claro que tem também um número maior de complicações, inerentes a qualquer cirurgia."
Ele diz, entretanto, que a cirurgia alcançou um grau de segurança bastante alto e que ela já não é feita em tantos pacientes como nos primeiros anos.
"Hoje se faz menos e com mais segurança. O sistema ficou todo computadorizado. O médico não precisa mais digitar no computador o grau de miopia do paciente, por exemplo. Isso é automático", diz.

domingo, 23 de março de 2008

Sabonete Bactericida - Solução ou Problema?

Sabonetes bactericidas, ameaça em vez de solução?

POR COCO BALLANTYNE

Sabonetes, produtos de limpeza domésticos, esponjas e até mesmo colchões e brilho labial agora contêm ingredientes bactericidas.

Mas a adição desses ingredientes faz algum sentido? Tradicionalmente as pessoas deixam o corpo e a casa livres de bactérias usando sabonete, sabão e água quente, álcool, água sanitária ou peróxido de hidrogênio (água oxigenada). O sabão funciona soltando a sujeira, a gordura e os microorganismos das superfícies, para que possam ser facilmente levados pela água. Limpadores gerais como o álcool provocam dano às células ao afetar estruturas-chave, Produtos contendo agentes antibacterianos deixam resíduos na superfície, como nota Stuart Levy, da Tufts University School of Medicine.

Promovendo a Evolução

Essa persistência dos antibacterianos é problemática. Quando a população bacteriana sobrevive ao primeiro ataque de um agente antibacteriano com a substância química remanescente, pode surgir uma pequena subpopulação armada com mecanismos de defesa especiais. Esse grupo então se multiplica à medida que seus parentes mais fracos perecem, e suportará o ataque da próxima vez que o agente químico for aplicado. "O que não mata fortalece" é a máxima que vigora aqui; as substâncias bactericidas selecionam as bactérias capazes de suportar sua presença.

A resistência às substâncias químicas tópicas não é o único risco. Quando as bactérias se tornam tolerantes a esses compostos, às vezes ficam menos sensíveis a certos medicamentos antibióticos. Esse fenômeno, chamado resistência cruzada, já foi demonstrado com o triclosano, um dos agentes mais comuns em produtos bactericidas.

Mutações genéticas podem ocorrer em bactérias expostas a triclosano por longos períodos e permitir resistência à isoniazida, um antibiótico usado no tratamento da tuberculose, por determinados microorganismos, explica Allison Aiello, da School of Public Health da University of Michigan. Outras mutações podem permitir aos microorganismos recarregar suas bombas de efluxo - máquinas de proteína na membrana celular que podem expelir vários tipos de antibióticos, incluindo a ciprofloxacina, usada no tratamento contra o antraz. Esses efeitos foram demonstrados em laboratório, não em residências e outros ambientes, mas Aiello suspeita que os poucos estudos realizados até o momento na casa das pessoas podem não ter sido suficientemente longos. "O potencial está lá", assegura.

Os cientistas têm preocupações adicionais com os agentes bactericidas. Tanto o triclosano quanto seu parente químico próximo, a triclocarbana, estão presentes em 60% dos rios e riachos americanos, aponta Rolf Halden, da Bloomberg School of Public Health, da Johns Hopkins.

Ambos os agentes também acabam no lodo produzido pelas usinas de tratamento de esgoto, que é usado como fertilizante para plantações, abrindo assim um caminho potencial para contaminação dos alimentos, diz Halden. "As concentrações no solo agrícola são muito altas", e essa abundância, "juntamente com a presença de patógenos do esgoto, pode ser uma receita para desenvolvimento de resistencia microbiana no meio ambiente", receia ele.

O triclosano também foi encontrado no leite materno humano - ainda que em concentrações consideradas como não ameaçadoras para os bebês - assim como no plasma de sangue humano. Não há evidência de que as atuais concentrações de triclosano no corpo humano sejam prejudiciais, mas estudos recentes sugerem que ele compromete a função de sistemas hormonais em sapos e ratos.

Nenhum Benefício

De qualquer maneira, o valor desses aditivos antibacterianos é questionável. Um painel de especialistas reunido pela Food and Drug Administration, agência de controle de alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, determinou que há evidências insuficientes de qualquer benefício proporcionado pelos produtos de consumo que os contêm. "O que essas coisas estão fazendo em nossa casa quando dispomos de sabão?", pergunta John Gustafson, da New Mexico State University,

Alguns cientistas argumentam que o uso de produtos antibacterianos é apropriado no lar de pessoas com sistema imunológico enfraquecido. Mas, em geral, uma boa higiene significa o uso de sabonetes comuns em vez de antibacterianos, dizem os especialistas. "A melhor forma de evitar doenças é lavar as mãos três vezes por dia e não tocar membranas mucosas", diz Gustafson.

Coco Ballantyne é jornalista free-lance em Nova York.

Publicada na Scientific American Brasil, número 70 - Março 2008

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Crianças rechonchudas

Na coluna de Drauzio Varella da edição 481 de "Carta Capital" ele discute o editorial da New England Journal of Medicine sobre o problema de excesso de peso nas crianças e o impacto na saúde nas próximas décadas.

É mais um alerta para este grave problema de saúde.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Relação entre obesidade e osteoporose

Há muito se acredita que um índice de massa corporal elevado previna ou atenue a perda de massa óssea após a menopausa e durante o envelhecimento. Entretanto em um estudo realizado por Zhao e colaboradores em cooperação com universidade chinesa e norte-americana mostra que não é bem assim.

Para melhor analisar a relação entre massa corporal e massa óssea os pesquisadores também avaliaram a composição corporal (proporção do peso correspondente a massa gorda e massa magra) e corrigiram para a carga mecânica causada pelo peso corporal.

O achado chave foi que a massa gorda se relaciona genética e ambientalmente inversamente com a massa óssea. A gordura corporal per se não protege contra a osteoporose. Os fatores genéticos e ambientais que podem reduzir a gordura corporal podem também ter efeitos benéficos sobre a massa óssea. Os dados também confirmam o efeito benéfico da carga de peso sobre o esqueleto, mas desafia o pensamento dominante que tanto a gordura quanto a massa magra (principalmente músculos) sejam benéficos. Uma maior massa corporal magra é basicamente causada por mais massa muscular o que causa mais carga mecânica sobre os ossos e também uma maior massa óssea.

Em acordo com estes achados há o artigo de Lee e colaboradores que além do tecido adiposo exercer efeitos sobre o esqueleto (por meio da leptina, principalmente) e esqueleto também influencia o tecido adiposo (por meio da osteocalcina).

Referências

Lee, N. K.; Sowa, H.; Hinoi, E.; Ferron, M.; Ahn, J. D.; Confavreux, C.; Dacquin, R.; Mee, P. J.; McKee, M. D.; Jung, D. Y.; Zhang, Z.; Kim, J. K.; Mauvais-Jarvis, F.; Ducy, P. & Karsenty, G. Endocrine regulation of energy metabolism by the skeleton. Cell. 2007;130, 456–469

Zhao, L.; Liu, Y.; Liu, P.; Hamilton, J.; Recker, R. R. & Deng, H. Relationship of Obesity with Osteoporosis. J Clin Endocrinol Metab. 2007;92, 1640–1646

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Uso de medicamentos anticonvulsivantes e risco de suicído

A agência que controla medicamentos e alimentos nos Estados Unidos (FDA – Food and Drug Administration) fez em 31 de janeiro de 2008 um aviso sobre o risco aumentado de ideação suicida, tentativa de suicídio e suicídio entre os usuários de medicamentos anticonvulsivantes para o tratamento de epilepsia, psicose, dor de cabeça entre outras condições.

As conclusões foram retiradas da análise agrupada (metanálise) sobre onze medicamentos anticonvulsivantes. O risco de pensamento suicida e suicídio foi o dobro comparado com o placebo (0,48% versos 0,22%) e já ocorre na primeira semana de uso e persiste pelas 24 semanas estudadas. As pessoas tratadas por epilepsia apresentaram um risco maior de ideação suicida e suicídio que as tratadas por problemas psiquiátricos e outras condições, não houve outras características clínicas ou demográficas que conferissem risco aumentado.

Todos os pacientes que estejam atualmente usando ou iniciando o uso de medicações anticonvulsivantes devem ser monitorados com cuidado para mudanças de comportamento que possam indicar a emergência ou piora dos pensamentos suicidas ou depressão.

As seguintes medicações foram incluídas na análise:

  • Carbamazepina (Tegretol® entre outros e genérico)
  • Felbamato (não disponível no Brasil) mas semelhante ao Fenobarbital (Gardenal®, Edhanol® entre outros e genérico)
  • Gabapentina (Neurontin® entre outras e genérico)
  • Lamotrigina (Lamictal® entre outras e genérico)
  • Levetiracetam (não disponível no Brasil)
  • Oxcarbazepina (Trileptal® entre outras e genérico)
  • Pregabalin (não disponível no Brasil)
  • Tiagabine (não disponível no Brasil)
  • Topiramato (Topamax® entre outros e genérico)
  • Valproate (Depakote®, Depakene® entre outros e genérico)
  • Zonisamide (não disponível no Brazil)

Embora os medicamentos listados acima fossem os únicos incluídos na análise, o FDA acredita que o risco aumentado de suicídio seja compartilhado por todos os medicamentos anticonvulsivantes e que esta recomendação seja aplicada a toda a classe.

Link para o aviso do FDA (em inglês)

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Violência e má nutrição

Um copiar e colar da Folha de São Paulo, domingo, 3 de fevereiro de 2008

link (somente para assinantes da Folha ou UOL)

Nutrição da violência

A comida de má qualidade torna as pessoas mais agressivas? Um estudo em prisões britânicas vai investigar essa questão

JEREMY LAURANCE
DO "INDEPENDENT"

Alguns dos presidiários jovens britânicos mais problemáticos receberão doses diárias de suplementos alimentares com a intenção de que seu comportamento agressivo diminua.
Cientistas da Universidade de Oxford afirmam que o efeito da nutrição sobre a conduta tem sido subestimado. Eles afirmam que o aumento no consumo de comida mal balanceada ("junk food") é em parte responsável pelo aumento dos índices de violência nos últimos 50 anos.
A universidade vai liderar um estudo com custo estimado de US$ 2,7 milhões no qual mil homens com idades entre 16 e 21 anos de três instituições para jovens infratores na Inglaterra e na Escócia serão escolhidos aleatoriamente para receber suplementos de vitaminas e minerais ou placebos, acompanhados durante um período de 12 meses.
Em um estudo piloto com 231 prisioneiros feito pelos mesmos pesquisadores, publicado em 2002, incidentes violentos durante o período de custódia caíram em mais de um terço entre aqueles que receberam os suplementos.
"Se for possível uma projeção a partir desses resultados, talvez vejamos uma redução de um terço a um quarto em uma prisão", diz John Stein, professor de fisiologia da Universidade de Oxford. "Seria possível reduzir os ataques violentos em uma comunidade em um terço. Isso traria um enorme benefício econômico."
O cientista acrescenta: "Nossas descobertas iniciais indicaram que melhorar o que as pessoas podem comer as leva a se comportar de modo mais sociável e também melhora sua saúde. Isso não é algo levado em conta atualmente nos planejamento nutricional de dietas. Não estamos dizendo que a nutrição é a única influência sobre o comportamento, mas aparentemente nós estávamos subestimando bastante a sua importância."
Mark Walport, chefe do Wellcome Trust, que está financiando o estudo de três anos, diz: "Se esse estudo mostrar que os suplementos nutricionais afetam o comportamento, isso pode ter uma importância profunda para diretrizes nutricionais, não apenas no sistema judiciário criminal mas na comunidade mais ampla e em escolas, por exemplo. Temos o costume de pensar em diretrizes de dieta para nossa saúde física, mas esse estudo pode levar a repensá-las, considerando nossa saúde mental".
A teoria por trás do teste é que quando o cérebro está carente de alguns nutrientes essenciais -especialmente os ácidos graxos da classe ômega 3, que são um "tijolo" molecular fundamental para a construção de neurônios- ele perde a "flexibilidade". Isso debela a capacidade de atenção e prejudica o autocontrole. Mesmo quando a comida de cadeia é nutritiva, prisioneiros tendem a fazer escolhas pouco saudáveis e precisam de suplementos, dizem os pesquisadores.
Bernard Gesch, pesquisador sênior no departamento de fisiologia e diretor da Natural Justice, entidade filantrópica que investiga as causas de agressões, afirma que os prisioneiros deveriam receber suplementos contendo 100% da dose diária recomendada de mais de 30 vitaminas e minerais, mais três cápsulas de óleo de peixe, totalizando 2,25 gramas acima de sua dieta normal.
"Estamos tentando reabilitar o cérebro para a justiça criminal", diz. "A lei assume que o crime é um ato de livre arbítrio. Mas você não pode exercer o livre arbítrio sem usar seu cérebro, e o cérebro não pode funcionar adequadamente sem um suprimento de nutrientes adequado."
"Essa é uma abordagem positiva para prevenir problemas de comportamento anti-social e criminal. É simples, parece ser altamente efetiva e o único "risco" de uma dieta melhor é uma saúde melhor. É uma rara situação de ganho de mão dupla na justiça criminal."
O Ministério da Justiça britânico está apoiando o estudo de três anos, que vai começar em maio. David Hanson, ministro do sistema penal, diz que espera que ele possa ajudar a esclarecer melhor a ligação entre nutrição e comportamento.
A Agência de Padronização de Alimentos do Reino Unido, de qualquer forma, afirma que não há evidência suficiente mostrando danos causados por suplementos de vitaminas, minerais ou óleo de peixe.